Imagine uma plataforma onde você pode avaliar filmes, escrever resenhas, abrir debates, participar de concursos e ainda ganhar pontos por isso. Agora imagine ter que tornar tudo isso intuitivo, para pessoas de três países diferentes, em três idiomas, sem poder mexer na estrutura do produto. Esse foi o meu trabalho no Peliplat.
Atuei como UX Writer e especialista em localização em uma plataforma cinematográfica com ambições de comunidade global.
O produto era rico em possibilidades: críticas, debates, concursos de escrita, gamificação, filmoteca. Mas riqueza de funcionalidades sem clareza de linguagem vira ruído. Meu papel foi transformar esse ecossistema em uma experiência que qualquer pessoa conseguisse navegar — e quisesse continuar explorando.
Riqueza de funcionalidades sem clareza de linguagem vira ruído.
Orientar sem sobrecarregar
O primeiro desafio foi estrutural: como ajudar a pessoa a entender onde estava, o que podia fazer e como participar, sem transformar a interface em um manual de instruções?
Trabalhei na criação e refinamento de microcopy em pontos críticos da jornada: CTAs, tooltips, mensagens de estado vazio, fluxos de criação de conteúdo e confirmações de ação. Cada texto precisava ser curto o suficiente para caber no componente, claro o suficiente para dispensar explicação e acolhedor o suficiente para não afastar quem estava chegando pela primeira vez.
Quando a plataforma gamifica, e a linguagem precisa acompanhar
A introdução de elementos de gamificação, com medalhas, missões e pontuação (o sistema LIGHT), trouxe uma nova camada de complexidade. Nomear funcionalidades era a parte fácil. O desafio real era criar uma linguagem que incentivasse o engajamento de forma natural, sem soar como um aplicativo de fitness tentando te convencer a fechar os anéis.
Concentrei meus esforços em construir consistência: os mesmos termos, o mesmo tom, a mesma lógica de recompensa comunicada de forma coerente em todos os pontos de contato, do perfil ao modal de instruções.
Quando o time de produto quis reaproveitar um mesmo termo para funções diferentes, defendi nomes distintos e logicamente conectados. Num produto denso e gamificado, desambiguar vale mais que repetir na superfície. E quando os títulos de funcionalidades se apoiavam em referências de filme, argumentei contra: espertos em um idioma, quebrados nos outros dois e estourando o limite de caracteres. Venceram nomes mais claros e seguros para localização.
Três idiomas, três contextos, uma voz
A localização foi estratégica desde o início. Adaptei o site para português, espanhol e inglês considerando não só a tradução, mas as expectativas culturais de cada mercado, especialmente as diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos em tom, formalidade e forma de engajar com comunidades online.
O maior desafio foi trabalhar com ciclos de revisão frequentes em um ambiente com restrições de componentes e estrutura de conteúdo. Sem poder reorganizar o layout ou expandir os textos livremente, cada escolha de palavra precisava equilibrar consistência global e naturalidade local — soando nativa em cada língua sem quebrar a coerência do produto.



Além da interface: ajuda e concursos
Meu trabalho foi além dos textos de interface. Estruturei e escrevi os fluxos da seção Ajuda, organizando perguntas frequentes, instruções passo a passo e orientações de conta de forma clara e acessível para uma comunidade diversa e em crescimento.
Também redigi as diretrizes dos concursos de escrita: textos que precisavam ser ao mesmo tempo precisos nas regras e motivadores o suficiente para fazer alguém querer participar.
O que esse projeto me ensinou
Num produto cheio de recursos, a linguagem não é um detalhe de finalização.
Trabalhar no Peliplat consolidou algo que já era central na minha forma de atuar: em um produto com muitas funcionalidades, a linguagem não é um detalhe de finalização. É o que decide se a pessoa entende, confia e volta. E quando você ainda precisa fazer isso em três idiomas com restrições reais de componente, cada palavra escolhida carrega muito mais peso do que parece.